terça-feira, 23 de junho de 2009

Sociologia e Filosofia Social. O caso Fim da História


A Evolução Social resulta da produção social, quanto mais se conhece as mudanças sociais, mais fácil é reagir à adaptação e a essa mudança.
É neste pressuposto que se coloca a questão – Sociologia e Filosofia social, o caso do “Fim da História”.
A Sociologia é uma ciência. Esta parte da realidade para teorizar acerca dela, isto é, analisa o que é a realidade social, a sociedade. Estuda os grupos sociais, procurando perceber o rumo das sociedades, compreendendo, deste modo, a reprodução social com a transformação social (as mudanças sociais em si). A sua principal função ou característica é a análise.
A Filosofia Social não é uma ciência, é uma disciplina ou sub-disciplina da Filosofia. Está, de facto, intimamente relacionada com a Sociologia, principalmente nas suas origens, contudo, não tem um carácter analítico como a Sociologia, tem sim, a ambição de apontar o caminho para a sociedade ideal, querendo perceber como se constrói o conhecimento, e assim, criar as suas próprias teorias para a sociedade ideal, uma sociedade de pleno bem-estar. Dado o grau de imaginação da “sociedade perfeita”, foi continuamente apropriada como estratégia pelo poder politico. Há quem a encare como uma mera reflexão sobre a sociedade em si, o que, neste prisma, vai dar origem ao chamado conceito “O Fim da História”.
A ideia do “Fim da História” é uma teoria da filosofia social, iniciada no Século XIX por Hegel, amplamente discutida na altura, mas que ainda não tinha sido discutida nos EUA, ao que foi retomada, em 1989, pelo professor Francis Fukuyama.
Francis Fukuyama é um conhecido professor nipo-americano que se licenciou em Filosofia politica, perseguindo os seus estudos até ao doutoramento na área da ciência politica. É muito conhecido por ser um “opinion maker”.
Como já foi referido, a ideia de Fukuyama não é nada original, contudo, devido ao facto de os americanos estarem habituados a terem os textos todos em inglês, a obra de Hegel ainda não tinha sido traduzida, acontecendo apenas nos anos 80 por Alan Bloom.
Francis Fukuyama, numa conferência na cidade de Chicago em que esteve presente a convite dos seus professores Alan Bloom e Natham Travoc, baseou-se na teoria do Fim da História para defender que o mundo bipolar iria terminar com o enfraquecimento politico e Económico da URSS e com o triunfo dos EUA, como superpotência.
Para Fukuyama, os EUA representam a única potência com capacidade de intervir em qualquer ponto do mundo sem ter qualquer tipo de resposta à altura. Esta capacidade justifica-se pelo modo organizacional, que segundo o professor, é perfeito.
Este modo organizacional baseia-se no modelo da democracia liberal, no qual a economia é de mercado livre, o sistema de valores depende exclusivamente da liberdade individual e, em termos jurídicos, pela consagração de uma constituição, o estado é de direito liberal.
Assim, o modelo dos EUA é considerado a “a forma final de governo humano”, sendo a base a liberdade, ou seja, o homem apropria-se de si próprio.
Em 1992, Fukuyama publica “O Fim da História e o Ultimo Homem” no qual responde às perguntas colocadas na conferência de Chicago.
No livro, em consonância com a conferência, defende que a democracia liberal pode construir o ponto terminal da evolução ideológica da humanidade e a forma final de governo humano ou estado homogéneo universal. Esta última ideia consiste no pensamento em que o homem só vai ser considerado quando estiver na sua própria dimensão (atingida apenas com o modelo da Democracia Liberal). Porém, isto não significa que a democracia liberal de hoje esteja livre de injustiças e de graves problemas sociais. Estas situações são produto de uma incompleta aplicação dos princípios da liberdade e da igualdade em que a democracia moderna se fundamenta. Embora alguns países ainda não tenham atingido uma democracia liberal estável ou outros que ainda estão em formas de governo mais atrasadas, o “ideal” de democracia tem que estar sempre presente como meta, na medida em que a “democracia é perfeita”.
Fukuyama explica também que o “Fim da História” não é uma correspondência de acontecimentos, mas sim à História em si, isto é, a História compreende-se como um processo singular, coerente que evolui. O desenvolvimento coerente das sociedades humanas é também tido em conta desde as sociedades tribais simples até à moderna democracia ao capitalismo.
Mesmo que nem todos os casos tenham dado lugar à democracia liberal estável, a democracia continua a ser a única aspiração politica coerente que se espalhe no mundo. Além disso, os princípios liberais na economia – o mercado livre – alastraram e conseguiram produzir níveis de prosperidade material sem precedentes, tanto nos países industrializados como nos em vias de desenvolvimento.
Todavia, as interpretações económicas da história são insuficientes, uma vez que o homem não é capaz apenas de ser um animal económico. Fukuyama defende que a razão pela qual somos democratas baseia-se na garantia de direitos básicos por uma lei fundamental, uma consideração que não procura recuperar a totalidade do homem apenas no aspecto económico. O ser humano procura assim o reconhecimento, o seu próprio valor e os princípios que atribuem valores, sendo estas as principais características que distingue o homem de outro qualquer animal – o valor e o prestigio.
“O Fim da História” é sobre o indivíduo que finalmente emerge – “O ultimo homem”, no qual entra na sua própria dimensão e se apropria de si próprio.
Alexandre Kojeve nascido em 1902 no Império Russo. Consagrou-se como filosofo de tendência marxista e hegeliana. Aquando da Revolução Russa, mudou-se para a Alemanha e mais tarde para a França, onde foi professor.
Em 1947, publicou “As Lições de fenomenologia do Espírito de Hegel” no qual interpretou as ideias de Hegel de forma analítica e critica, ou seja, não foi uma tradução genuína.
Ele tinha o seu próprio modelo do Fim da História, que considerava uma nação correcta – a Rússia De Estaline –, na medida em que esta apresentava um modelo em que, em termos ideológicos, não havia estratificação social, criando-se todas as condições para que os indivíduos pudessem usufruir de plena liberdade.
Kojeve defendia que era com um estado centralizado que havia a possibilidade de garantir as liberdades e necessidades dos indivíduos, um instrumento fundamental para assegurar as necessidades de todos. Além disso, era um estado sem classes, não existindo conflitos políticos e tinham todos acautelado o princípio da garantia de direitos, liberdades e igualdades.
Mais tarde, com a visita à URSS, Kojeve desiludiu-se com o facto de existir uma elite que estava no governo e que tinha em si direitos diferenciados, o que levava a desigualdades. Chegou então à conclusão que será uma ideia errada, pois a sua ideia de Fim da História não correspondia com a Rússia de Estaline.
Na sua opinião, então, o país que melhor se identificava com a sua perspectiva seria o Japão, isto porque o espírito japonês era de trabalho árduo ao longo da vida de modo a morrerem de forma honrosa, isto é, atingirem a morte de forma digna.
Kojeve acreditava, nesse caso, que o Japão (país desenvolvido para a época) tinha em si as características sociais e politicas que mais identificavam com o modelo do Fim da História.
F.W. Hegel é de facto o verdadeiro criador do conceito do “Fim da História”, no qual todos os outros autores se basearam.
Em 1807, publicou a obra “ Fenomenologia do Espírito” no qual contem o desenvolvimento lógico das suas ideias e o conceito de O Fim da História.
Hegel acreditava que a evolução das sociedades humanas era limitada - acreditava que a humanidade conseguisse atingir uma forma de sociedade que satisfizesse as suas mais profundas e fundamentais aspirações, a liberdade. Para o autor, era o estado liberal que se associava ao modelo de Fim da História.
Segundo Hegel, os seres humanos, tal como os animais têm necessidades naturais e desejos de objectos que lhes são externos e, acima de tudo, a preservação dos seus próprios corpos. Contudo, o homem distingue-se porque deseja ser reconhecido. Em particular, quer ser reconhecido como ser humano, com valor e dignidade. Durante um reconhecimento recíproco, em que cada indivíduo reconhece a dignidade e a humanidade de todos os outros e em que essa dignidade é, por sua vez, reconhecida pelo estado através da garantia de direitos, atreves do liberalismo.
Para Hegel, a maturação da história, o fim último, dá-se quando o homem tem a possibilidade de ser plenamente livre. Este reconhecimento deu-se na Guerra da Prússia Franco-Germanica em Iena (1806). Hegel assistiu à queda Iena (simbologia com a queda da URSS e muro de Berlim) e à vitória de França. O exército francês, liderado por Napoleão dava conquistas consecutivas, sendo considerado um exército libertador, já que transportava consigo as ideias revolucionárias – Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Esta transmissão de valores espalhava a imagem do triunfo dos ideais franceses nos quais o indivíduo tem a possibilidade de se apropriar de si mesmo.
Para o autor, a simbologia da guerra franco-germanica significava um triunfo de um modelo, um modelo napoleónico. Este triunfo acontece quando Hegel obaserva Napoleão no seu cavalo, representando o Fim da História, pois alcançou naquele momento, ao anoitecer, o planalto, permitindo ao homem usar os seus direitos e liberdades.
Hegel acreditava que o modelo napoleónico seria acolhido mundialmente por ser um moelo de tipo perfeito, isto é, um estado homogéneo e universal, de liberdade plena.
Polibio viveu no século II a.C., sendo o antecedente clássico do conceito “Fim da História”, mas quem nos dá o verdadeiro conceito é Hegel.
Polibio é grego e foi feito prisioneiro dos Romanos porque acreditava-se que ele estava envolvido numa conspiração contra o Império Romano. Assim, foi levado para Roma, para casa de um general que dirigia a guerra em Cartago, cidade completamente destruída pelos Romanos. Roma tinha em si a capacidade de expansão em várias áreas, ou seja, era considerada uma superpotência.
Deste modo, Polibio conheceu as estratégias militares e politicas romanas, tentando compreender a sua força supremacia perante as outras civilizações. Chegou, então, à conclusão que os romanos continham em si formas puras de governo (visam o bem comum), aristocracia, democracia, monarquia; e formas degeneradas (visam o bem de alguns), tirania oligarquia e demagogia.
Formas de Governo para Polibio
Formas Puras
Degeneradas
Monarquia
Tirania
Aristocracia
Oligarquia
Democracia
Demagogia
Anaciclose Perfeita – Ciclo Vicioso

Também Polibio chega à conclusão que Roma conseguiu quebrar estas formas de governo (ciclo) em que cada forma pura leva a uma forma degenerada, através da constituição mista romana (o modelo que se pode comparar ao Fim da História). Esta constituição mista consiste em dois cônsules (seis meses cada uma, monarquia, senado (aristocracia), tribunos da plebe (representam a sociedade, a democracia). Esta constituição permite uma vigilância permanente uns dos outros, tomando a governação perfeita e triunfante.
Concluindo, cada autor tem a sua perspectiva e modelo de Fim da História, porém, todos estes autores se relacionam, na medida em que todos tinham um modelo organizacional a um estado triunfante, homogéneo universal e são todos contemporâneos da época em que consideram existir o fim da História.

1 comentário:

ti disse...

ola jonas =)
Nao estou a tirar o curso de sociologia mas uma das minhas cadeiras é sociologia geral.
como sou trabalhadora estudante nao pude comparecer a muitas aulas e vim à procura de alguns apontamentos que me pudessem ajudar. deparei-me com a tua completissima resposta =)
a minha pergunta é: posso confiar em todo o contexto da resposta?
é que nao tenho muito tempo para fazer pesquisas aprofundadas e a tua resposta parece de certa forma "perfeita"..